segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O arquétipo do inválido e a clínica psicológica - Guggenbühl-Craig

Texto retirado do livro "Eros de muletas" de Adolf Guggenbühl-Craig

De acordo com a fantasia contemporânea de saúde, devemos nos tornar completos sendo a totalidade entendida no sentido de perfeição: "Seja perfeito..." O defeito mais insignificante, a menor disfunção deve ser curada, removida ou erradicada. Apesar de ter existido um tempo em que um temperamento melancólico era aceito, e até idealizado, hoje melancólicos são diagnosticados como "depressivos", são tranquilizados e medicados a ponto de se tornarem vegetais maravilhosamente contentes. No fundo todos somos conscientes de nossas falhas, nossas fraquezas, nossa invalidez. Ao mesmo tempo reprimimos essa compreensão de todas as maneiras possíveis. Lutamos interminavelmente, insensatamente para manter a ilusão de totalidade ao tentar alcançar a saúde perfeita.

Nossa cegueira quanto ao lugar e a importância do arquétipo do inválido torna-se uma atitude moralista, tendo como deuses máximos a saúde e a totalidade. Não é difícil imaginar o quão devastadora esta atitude é quando se trata daqueles que sofrem de neuroses e desordens psicossomáticas. Sou constantemente surpreendido por um tom de superioridade moral que desliza nas vozes dos psicoterapeutas quando discutem casos desta natureza. Neuróticos e psicossomáticos simplesmente são inferiores; eles não podem ser curados porque eles não o querem ser. Eles não querem mudar; eles não querem crescer. Eles recusam nossos esforços para sua melhora. Eles nem sequer escutam seus sonhos! Como afogados, eles agarram-se a suas resistências, defendendo-se, como vemos, tenazmente contra o terapeuta que está apenas tentando ajudá-los. Tais pessoas, tais pobres e ignorantes almas, merecem apenas nossa atenção quando abraçam nossa fantasia de crescimento/saúde/totalidade (é uma fantasia ou uma fixação ilusória?). Como terapeutas, apenas nos interessamos por eles quando eles querem ser curados.


Não quero deixar a impressão de que todos os pacientes sejam casos crônicos ou não possam ser curados. Simplesmente quero apontar que em casos onde o arquétipo do inválido se manifesta, cura e totalidade simplesmente não são possíveis. Aceitar esse fato pode parecer imoral, para ambos o paciente e o analista. Os efeitos positivos, entretanto, logo vão compensar qualquer dúvida que possa persistir. Pelo fato da cura e totalidade estarem tão em voga hoje em dia, precisamos desesperadamente de reflexão e aceitação do arquétipo do inválido.

[...] É nossa falha em aceitar o inválido dentro de cada um de nós, nossa fantasia de que seres humanos devem ser tão saudáveis quanto aqueles deuses gregos idealizados, que nos faz incapazes de lidar com o arquétipo do inválido quando nos encontramos com ele. [...]

Muitos de nossos pacientes são claramente inválidos. Para fornecer-lhes a ajuda que precisam - já que curar não é possível - devemos trazê-los a um ponto em que possam viver com sua deficiência. Na terapia temos que trabalhar com o arquétipo do inválido, ajudando nossos pacientes a ver que, seu processo de individuação inclui sua invalidez. Trabalhar sem ele, excluí-lo, não seria nada além de uma ilusão. [...]

Os papas da Saúde e Totalidade fariam com que ajudássemos nossos pacientes a desenvolver todas as quatro [funções psicológicas / pensamento, sentimento, sensação e intuição]. Entretanto, muitos pacientes, por uma razão ou outra, não têm uma ou duas destas funções. É como se fossem deformados ou aleijados. Se, por exemplo, neles está ausente a função sentimento, seria inútil ajudá-los a desenvolver o que não está lá. Ao invés disso, faríamos melhor em ajudá-los a explorar a medida de sua deficiência, mostrar-lhes como viver sem isto, e demonstrar como eles podem se beneficiar de alguém que, por exemplo, tenha uma função sentimento desenvolvida. A tentativa de desenvolver todas as quatro funções em tais pacientes apenas levaria a desapontamento e frustração para ambos o paciente e o terapeuta. Ao invés de aceitar e respeitar o paciente como ele é, um inválido, existe o perigo de que o terapeuta e o paciente não apenas rejeitem a invalidez, mas também a desprezem. O resultado para o paciente pode compreensivelmente ser desastroso. Na verdade não somos nós analistas os defensores do arquétipo do inválido? Não é o que deveríamos ser? [...]

Em última instância [...], ambos a Totalidade e a Invalidez são aspectos do Self, representando polaridades básicas em nossa psique. Infelizmente quando falamos sobre o Self, há coisas demais ditas sobre qualidades como circularidade, completude e totalidade. Já é hora de falarmos da deficiência, da invalidez do Self. Sempre tive dificuldades com o fato de as mandalas serem consideradas símbolos par excellence do Self - elas são muito completas para o meu gosto. O homem chega à realização completa de si mesmo, ou de seu Self, através de sua invalidez; a completude é alcançada através da incompletude. O processo pode ser descrito, percebido e experimentado. Evidentemente é difícil sustentar a imagem da completude e totalidade e, ao mesmo tempo aceitar a invalidez. uma ou outra vai, inevitavelmente, ser enfatizada. Durante a Idade Média, até a Reforma, o grotesco e deformado da humanidade reinavam. Hoje sucumbimos ao culto ao completo, saudável e circular, à perfeição no estilo das mandalas.

2 comentários:

Claudia Basso - Psicóloga disse...

O Inconsciente coletivo apresenta uma busca para transformação do ser humano em máquinas e nem as máquinas são perfeitas não é verdade? Esse arquétipo do inválido é super válido! Belo texto.

Fabricio Moraes disse...

Guggenbhul-Craig é uma leitura fundamental! Aceitar os limites da "cura" e que saúde não deve ser identificado com a totalidade é de suma importância para tudo que deseja ser um psicoterapeuta ou analista.