sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A escuta e o autoconhecimento


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Saber escutar é sempre um exercício de humildade. Só é possível encher um recipiente que esteja vazio. É esvaziar-se de nossos pressupostos para que a verdade do outro possa nos revelar, ao mesmo tempo, quem ele é e quem nós somos. Como se precisássemos tirar a roupa para sentir o toque e percebermos, não somente a pele do outro, mas nossa própria pele. Não existe autoconhecimento sem o outro. Sem ele, só há uma visão fechada em si mesma; que se pretende reveladora, enquanto nos oculta de nós mesmos.

sábado, 5 de agosto de 2017

Sobre o respeito

Percebe que só é possível aprender pela vivência? Você precisa abandonar suas suposições pra poder ver a verdade. O respeito não é nada disso do que dizem, mas agora você sabe. Respeitar é aceitar a verdade do outro com gentileza enquanto oferece a sua verdade com generosidade. É uma dança eterna entre dois; o mais belo fluir da vida. É estar com o outro na verdade e pela verdade. É onde os dois podem descobrir que são muito mais do que supunham de si próprios. Que suas raízes mergulham no infinito. No respeito descobrimos a nós mesmos porque descobrimos o outro. Aí é onde Deus está presente.

A mulher sagrada

Para se curar é preciso estar sem roupa. Foi somente quando você se despiu que ela, generosamente, viu em seus olhos o seu mais profundo segredo. Olhou no fundo do seu abismo e lá descobriu você despedaçado. Essa mulher sagrada viu essa dor que não é sua, mas que te acompanha há muito tempo e está sempre próxima a você. Ela te fez ver que você não é essa dor. Que você não precisa estar nela. Isso é uma escolha que você faz a cada instante e, que a cada novo instante pode escolher o contrário. Essa dor, que não é sua, se mistura em sua vida formando a sua própria dor. Por isso é uma dor que, ao mesmo tempo em que não é sua, é também sua mais íntima dor. É uma dor que está aí porque você precisa dela. Porque é ela que te faz ter consciência da profunda interdependência que existe entre você e o outro; graças ao qual você pode ser inteiro no outro. É preciso encontrar um caminho para que essa dor - que não é sua, ao mesmo tempo em que é - não te despedace; e essa mulher conhece esse caminho. O corpo dela é o rio que quer te levar pro mar; mas você deve se soltar para permitir que ela te leve. O que pra você é um grande mistério, para ela é a simplicidade clara de quem ela é. Essa mulher é a sabedoria que eternamente junta seus pedaços. A estrela que te guia através da escuridão no sentido da luz. É a mais sagrada das mulheres; que sabe de tudo o que você precisa; e como uma fonte, traz tudo isso até você. Te convida sempre e de novo a uma dança circular - um ciclo eterno de cura, em que a cada volta junta em você um novo pedaço seu que antes estava separado. Que vai te tornando cada vez mais íntegro, até o infinito. Você só é inteiro em união com ela - escutando com atenção e deixando ser levado por sua sabedoria eterna.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Crise da meia idade - James Hollis


Texto retirado do livro "A passagem do meio" de James Hollis

Quase toda sensação de crise na meia-idade é provocada pela dor dessa separação. A disparidade entre a concepção interior do eu e a personalidade adquirida torna-se tão grande que o sofrimento não mais pode ser reprimido ou compensado. Ocorre então o que os psicólogos chamam de descompensação. A pessoa continua a atuar a partir de antigas atitudes e estratégias, mas estas já não são eficazes. Os sintomas de aflição da meia-idade devem ser bem recebidos, pois representam não apenas um eu instintivamente firmado debaixo da personalidade adquirida, mas também uma poderosa imposição de renovação. 

O trânsito da passagem do meio ocorre no temível choque entre a personalidade adquirida [principalmente na infância] e as exigências do Si-mesmo. Uma pessoa que passa por essa experiência frequentemente entrará em pânico e dirá: "Não sei mais quem sou". Com efeito, a pessoa que o indivíduo foi está para ser substituída pela pessoa que será. A primeira deve morrer. Não é de causar surpresa que exista essa enorme ansiedade. O indivíduo é intimado, psicologicamente, a morrer para o velho eu para que o novo possa nascer. 

Essa morte e renascimento não é um fim em si mesmo; é uma transição. É preciso passar pela passagem do meio para nos aproximarmos mais do nosso potencial e conquistarmos a vitalidade e a sabedoria do envelhecimento maduro. Por conseguinte, a passagem do meio representa uma intimação interior para que deixemos a vida provisória e avancemos em direção à verdadeira idade adulta, do falso eu para a autenticidade. [...]

[...] a passagem do meio começa com uma espécie de pressão tectônica que vem de baixo para cima. Como as placas da terra que se deslocam, roçam umas nas outras e acumulam a pressão que é expelida sob a forma de terremotos, assim colidem os planos da personalidade. A noção adquirida do eu, com suas percepções e complexos agregados, sua defesa da criança interior, começa a ranger e ringir contra o Si-mesmo, que busca a própria realização.

Essas ondulações sísmicas podem ser dissolvidas através da consciência do ego defensiva, mas a pressão continua a crescer. Invariavelmente, muito antes de a pessoa tornar-se consciente de uma crise os indícios e os sintomas já estão presentes [...]. A partir do ponto de vista terapêutico, os sintomas devem ser bem recebidos, pois eles não apenas servem de flechas que apontam para a ferida, como também exibem uma psique saudável e auto-reguladora em funcionamento.

Jung observou que uma neurose "precisa em última análise ser compreendida como o sofrimento de uma alma que não descobriu seu significado". Essa declaração não sugere que possamos consumar uma via sem sofrimento, e sim que o sofrimento já está sobre nós e somos portanto obrigados a descobrir o seu significado.

Quem conhece Deus pessoalmente - Luís Paulo B. Lopes

Texto de Luís Paulo B. Lopes

Abençoado é aquele que conhece Deus pessoalmente. Que persevera com paciência enquanto atravessa a mais escura das noites. Pode a força lhe faltar e cair de joelhos; pode a esperança lhe abandonar e pensar que não há qualquer luz que o guie na escuridão. Pode se ver completamente só, no desamparo absoluto; perdido para sempre num labirinto sem fim. Pode entrar em desespero e se agarrar, em vão, a ilusões caducas, para logo vê-las escorrer entre os dedos. Pode se debater na lama, mortificado; abandonado pela fé. Mas esse que conhece Deus pessoalmente consegue encontrar, apalpando no escuro, aquilo que transforma a dor e o desespero em gratidão e amor. Pois se aconchega dentro do Coração do Pai Eterno, onde encontra consolo para tudo. Essa Pedra rubra transforma toda culpa em contrição; ódio em perdão; desapontamento em compreensão; reprovação em compaixão; humilhação em solidez. Todo peso se dissipa e a liberdade aflora de mãos dadas com a alegria. Vontade incontrolável de cantar pra Deus! A dor e o sofrimento são transformados num amor puríssimo e cristalino, e o coração transborda em gratidão! Coisa mais linda não há! Esse que conhece Deus pessoalmente não precisa acreditar, pois vive Nele; nesse Ser que está além de qualquer crença. Quem conhece Ele não precisa ser religioso; mas pode pertencer a qualquer religião. É verdade que todos acabam se esquecendo Dele pra se enrolar novamente na ilusão. Por algum motivo não é possível viver Nele o tempo inteiro. Mas esse que O conhece pessoalmente sempre acaba voltando ao aconchego do Lar, pois sabe escutar Seu chamado e conhece o caminho até Ele, através do próprio coração. É um afortunado que terá sempre uma Estrela pra lhe guiar; basta lembrar-se de olhar pro céu! Ela estará sempre lá por ele, indicando o caminho. É essa a Estrela que transforma fé em confiança, e confiança em otimismo diante da vida e da morte. Não é preciso acreditar em nada disso, pois há uma porta em cada coração, que leva direto ao Coração do Pai Eterno; basta abri-la e estar Nele. Por acaso tem como não chorar de gratidão por uma maravilha dessas?

Sobre o sacrifício: persona, sombra e Self - Luís Paulo B. Lopes

Texto de Luís Paulo B. Lopes

É como se tivéssemos que sacrificar os ideais mais elevados do homem civilizado, aos quais julgamo-nos eméritos representantes; aquelas virtudes coletivas que pensamos não somente possuir, mas que chegamos a confundir-nos com elas. Concordo com Jung quando afirma que a identificação com a persona é sempre um ato egoísta que tenta tirar alguma vantagem; já que através dela recebemos admiração, segurança, um lugar de valor no mundo. Com isso, ingressamos no paraíso da inconsciência; no alto de um platô sobre nuvens, onde não é possível ver o que há mais abaixo. Tentamos espremer o mundo para que caiba dentro de nossa própria cosmovisão e, assim, projetamos uma imagem do mundo como se este fosse imutável e previsível; ao mesmo tempo, supomos haver descoberto e encarnado o significado último de ser um homem civilizado. Protegidos da insegurança que anda de mãos dadas à eterna impermanência do fluir da vida através do tempo, evitamos cautelosamente a amarga consciência de estarmos perdidos em território misterioso e inexplorado. Livres dos conflitos morais que emergiriam implacáveis caso tivéssemos consciência de que o mal que combatemos no outro é o mal de nosso tempo, do qual estamos imersos até o pescoço. Acreditando cegamente que somos aceitos por inteiro, mesmo quando oferecemos ao mundo nossa face bela e ocultamos a terrível, e assim alienamo-nos da inexorável solidão inerente à condição humana e do abandono irrevogável que nos marca a todos no instante em que nascemos. Em suma, nos protegemos de quem realmente somos ao confundirmo-nos com o tributo que devemos pagar ao coletivo; perdemo-nos de nós mesmos num regozijo paradisíaco ao acreditarmos ser unicamente aquilo que o mundo espera que sejamos. Pois é este paraíso que devemos sacrificar a fim de nos encontrarmos com nós mesmos em nossa dolorosa ambiguidade; é como abrir os braços à dor que nos sustenta, mas da qual fugimos assustados sempre que espreita - a dor de ser. Embora experimentemos este sacrifício como autoimolação, fundamentalmente não se trata de negar a si próprio, mas de negar a sedução paradisíaca de ser inteiramente definido pelo mundo. Eis o paradoxo: ao oferecermo-nos em sacrifício, damos vida a quem somos.

Sobre a angústia: alteridade e o nascer da imagem - Luís Paulo B. Lopes

Texto de Luís Paulo B. Lopes

A angústia é algo que impede o nascimento de uma imagem que tenta vir à luz. Como se a imagem ficasse turva e imperceptível por uma mancha; que cresce na medida em que a imagem se aproxima. Surge quando uma imagem quer se formar mas não consegue; e quando ela finalmente se forma, a angústia desaparece. Tomar consciência da imagem oculta sob a angústia, portanto, envolve permitir seu nascimento, sentir o afeto que carrega, estar com ela e lidar com a responsabilidade ética que ela traz consigo. Permitir o nascimento da imagem depende da aceitação da angústia; de abrir mão da vontade de afastar o mal-estar, assumindo uma postura passiva e receptiva. É preciso abandonar as armas. O eu que aceita torna-se então a terra fértil que pode receber a semente imagética e, o estar com ela é o mesmo que permitir que cresça até se transformar em uma nova atitude que leve em conta o outro rejeitado. Partindo da rejeição, passa pelo suportar, pelo tolerar, até que finalmente nasça uma atitude fraterna. Da ética da exclusão para uma ética da fraternidade imagética. Nesse caminho, transforma-se não somente a imagem e seu afeto, mas também o eu se fortalece através do ganho de flexibilidade. Ampliar a consciência não se refere somente a jogar luz na escuridão, isto é somente uma consequência; o fundamental é uma mudança de atitude diante da imagem, em que sejamos mais capazes de estar abertos ao outro. É isso o que a angústia tenta operar, uma abertura do eu em relação ao inconsciente e à vida. Não se trata de ser capaz de aceitar tudo, muito menos de cumprir com a expectativa do outro, mas é como aceitar o próprio destino.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Dor da alma e psicoterapia - Roberto Gambini

Texto retirado do livro: A voz e o tempo de Roberto Gambini.

Queria ainda acrescentar que a alma doída adquire uma força, uma radicalidade surpreendente em sua maneira de se expressar e de entender as coisas. É como se, por sofrer, a alma se tornasse ainda mais ousada e mais corajosa nos comentários que tem a fazer sobre este mundo, suas desgraças, verdades e belezas. A dor a torna mais eloquente, mais penetrante, mais surpreendente, e esse seu modo de assim falar, podemos reconhecer em escritores, artistas, pensadores, inovadores de todos os tipos. Não é uma eloquência retórica, não é um uso das palavras ou das emoções usadas para discutir argumentos usuais, mas é como que uma subversão da maneira de se considerar coisas costumeiras.  Parece que a alma, ferida, ao mesmo tempo fica forte naquilo que declara; é como se com isso ganhasse não uma legitimidade, mas espaço, acesso para abordar temas que não costumam ser abordados. Então esse é um dos efeitos desse mistério que procuro formular – e por isso justifica que uma terapia dê valor à dor. Porque poderia ser dito: isso é um viés depressivo da terapia, ou um gostar da dor. O que estou dizendo é exatamente o oposto. É essa dificílima relação com a própria dor ou com a alheia promove inovações. E como venho repetindo, a mim interessam as inovações do conhecimento e do discurso da alma – distinto daquele proferido pelo intelecto e pela razão.

A razão e o intelecto podem ancorar a expressão da alma; mas a origem dessa expressão está nela mesma, e não nos primeiros. Essa força penetrante advém do fato de que só a alma que habitou o Hades consegue lançar luz sobre as obscuridades que a luz da razão não ilumina. Sua luz é outra. É como se a alma que sofreu adquirisse o poder de se iluminar a si mesma, para se revelar. O que ela faz é apenas revelar-se; o resto é com a gente. Quer dizer: a alma somos nós. Mas quando se revela, é o nosso ego, é a nossa consciência, é o nosso humano, demasiadamente humano que tem a tarefa de fazer alguma coisa com o que foi revelado, ou a revelação se perde. A revelação é dada, ela é um dom. Pois ouso dizer que a origem do dom é a dor.

Há uma ideia muito antiga, expressa no mito de Quiron, o Curador Ferido, de que a possibilidade de curar advém da experiência de conhecer a dor. No entanto aqui não estou me referindo especialmente à capacidade de curar, mas àquilo que é produzido pela alma doída: ela produz algo, não se estiola, não fica lamentando eternamente. Algo ocorre na alma ferida. Ela expressa algo, ela passa a iluminar algo. Complemento então: a terapia é uma escuta, não exatamente da fala do paciente, mas do processo transformador da alma doída, do que esta passará a dizer. É preciso um ouvido muito atento para isso, para não se confundirem essas expressões da alma com as oriundas do ego. Elas não são a mesma coisa, e há que se ter um ouvido que ouça essa melodia anímica, porque na verdade são essas manifestações que vão revelar qual é o processo da pessoa na dimensão anímica, objeto este a ser reconhecido e mais estudado. O mais fundo que consigo tocar neste momento é que o trabalho terapêutico tem que ouvir essa matéria fugidia, sem no entanto dirigir o andamento dos passos: são apenas duas pessoas falando, ouvindo e aprendendo a prestar atenção no som das asas batendo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O arquétipo do inválido e a clínica psicológica - Guggenbühl-Craig

Texto retirado do livro "Eros de muletas" de Adolf Guggenbühl-Craig

De acordo com a fantasia contemporânea de saúde, devemos nos tornar completos sendo a totalidade entendida no sentido de perfeição: "Seja perfeito..." O defeito mais insignificante, a menor disfunção deve ser curada, removida ou erradicada. Apesar de ter existido um tempo em que um temperamento melancólico era aceito, e até idealizado, hoje melancólicos são diagnosticados como "depressivos", são tranquilizados e medicados a ponto de se tornarem vegetais maravilhosamente contentes. No fundo todos somos conscientes de nossas falhas, nossas fraquezas, nossa invalidez. Ao mesmo tempo reprimimos essa compreensão de todas as maneiras possíveis. Lutamos interminavelmente, insensatamente para manter a ilusão de totalidade ao tentar alcançar a saúde perfeita.

Nossa cegueira quanto ao lugar e a importância do arquétipo do inválido torna-se uma atitude moralista, tendo como deuses máximos a saúde e a totalidade. Não é difícil imaginar o quão devastadora esta atitude é quando se trata daqueles que sofrem de neuroses e desordens psicossomáticas. Sou constantemente surpreendido por um tom de superioridade moral que desliza nas vozes dos psicoterapeutas quando discutem casos desta natureza. Neuróticos e psicossomáticos simplesmente são inferiores; eles não podem ser curados porque eles não o querem ser. Eles não querem mudar; eles não querem crescer. Eles recusam nossos esforços para sua melhora. Eles nem sequer escutam seus sonhos! Como afogados, eles agarram-se a suas resistências, defendendo-se, como vemos, tenazmente contra o terapeuta que está apenas tentando ajudá-los. Tais pessoas, tais pobres e ignorantes almas, merecem apenas nossa atenção quando abraçam nossa fantasia de crescimento/saúde/totalidade (é uma fantasia ou uma fixação ilusória?). Como terapeutas, apenas nos interessamos por eles quando eles querem ser curados.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O trauma e as defesas arquetípicas da alma - Donald Kalsched


Texto retirado do livro "O mundo interior do trauma" de Donald Kalsched

O que os sonhos revelam e o que pesquisas clínicas recentes demonstram é que, quando o trauma atinge a psique em desenvolvimento de uma criança, tem lugar uma fragmentação da consciência na qual as diferentes "partes" (Jung as chamava de psiques fragmentadas ou complexas) se organizam de acordo com certos padrões arcaicos e típicos (arquetípicos), mais comumente díades ou sizígias formadas por "seres" personificados. Tipicamente, uma das partes do ego regressa ao período infantil, e outra parte progride, isto é, cresce rápido demais e se torna precocemente adaptada ao mundo exterior, com frequência como um "falso eu" (Winnicott). A parte da personalidade que progrediu cuida, então, da parte que regrediu. Essa estrutura dual foi independentemente descoberta por clínicos de muitas convicções teóricas diferentes, fato que indiretamente respalda a sua base arquetípica. [...]

Nos sonhos, a parte da personalidade que regrediu é geralmente representada como um eu-criança ou um eu-animal vulnerável, jovem e inocente (não raro feminino) que permanece vergonhosamente oculto. Seja qual for a sua encarnação particular, esse "inocente" remanescente do eu total parece representar um núcleo do espírito pessoal imperecível da pessoa - o que os antigos egípcios chamavam da "alma-Ba", ou a Alquimia, o espírito alado vitalizante do processo de transformação, isto é, Hermes/Mercúrio. Esse espírito sempre foi um mistério, uma essência da individualidade que nunca é totalmente compreendida. É a essência imperecível da personalidade - a que Winnicott se referia como o "Verdadeiro Eu" e que Jung, buscando um conceito que reverenciaria as suas origens transpessoais, chamou de Self. A violação desse núcleo interior da personalidade é inconcebível. Quando outras defesas falham, as defesas arquetípicas não medirão esforços para proteger o Self - chegando mesmo ao ponto de matar a personalidade que abriga esse espírito pessoal (suicídio).